Consagração da Criatura
Filho…igualzinho à minha poesia
Você nunca foi meu órgão
Capaz de prosseguir com essa invenção chamada humanidade
Você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer
Meu corpo zunir, abrir, escancarar pra você sair
De onde eu nunca pus sequer os pés , as mãos
Da casa em que vivo e habito sem nunca ter entrado
E haverá sempre um leite materno.
Olhou as minhas entranhas enquanto virava ser humano
Quieto dentro de mim como as palavras antes de serem poesia
Mas fui apenas uma pensão, uma besteira
Ou um hotel cinco estrelas
Ou um amniótico colchão
Hoje saído dessa embalagem, me olhas como miragem
De parecer tão próprio, tão seu…
Deixar de ser óvulo, indefinição, projeto, embrião…
Escorrendo pelo seu terno
Como mirra, benção, distração
Como birra, alimento, maldição
Maior que em mim, melhor que mim.
Está pronto e feito como o meu melhor poema…
ELISA LUCINDA
Obrigado
Obrigado porque tiveste na tua vida um lugar para a minha vida, renunciando a tantas coisas boas que poderias ter saboreado. Porque - mais do que isso - fizeste da tua vida um lugar para a minha. E de muitas maneiras morreste para que eu pudesse viver.
Porque não eras corajosa, mas tiveste a coragem de embarcar numa aventura que sabias não ter retorno.
Porque não fizeste as contas para avaliar se a minha chegada era conveniente: abriste simplesmente os braços quando eu vim.
Porque não só me aceitaste como era, como estavas disposta a aceitar-me fosse eu como fosse. Porque dirias “o meu filhinho” mesmo que eu tivesse nascido deformado e me contarias histórias ainda que eu tivesse nascido sem orelhas. E me levarias ao colo mesmo que eu fosse leproso. E, mesmo com tudo isso, me mostrarias com orgulho às tuas amigas. Porque seria sempre o teu bebé lindo.
Devo-te isso, embora não tenha acontecido, porque o farias.
Obrigado porque não tiveste tempo para visitar as capitais da Europa. Porque as tuas amigas usavam um perfume de melhor qualidade que o teu. Porque, sendo mulher, chegaste a esquecer-te de que havia a moda.
Porque não te deixei dormir e estavas sorridente no dia seguinte. Porque foste muitas vezes trabalhar com manchas de leite na blusa. Porque me sossegaste dizendo “não chores, filho, que a mãe está aqui”, e estar no teu regaço era tão seguro como dormir na palma da mão de Deus.
Obrigado porque é pensando em ti que posso entender Deus.
Obrigado porque não tiveste vergonha de mim quando eu fazia birras nos museus, ou me enfiava debaixo da mesa do restaurante porque queria comer um gelado antes da refeição. E porque suportaste que eu, na adolescência, tivesse vergonha de que os meus amigos me vissem contigo na rua.
Obrigado porque fizeste de costureira e aprendeste a fazer bolos. Porque fizeste roupas e máscaras para as festas da escola. Porque passaste uma boa parte dos fins de semana a ver jogos de rugby ou de futebol para que - quando eu perguntasse “viste-me, mãe, viste-me?” - pudesses responder com sinceridade e orgulho “é claro que te vi!”.
Obrigado por o teu coração ser do tamanho de me teres dado irmãos. Como eu seria pobre se não os tivesse!
Obrigado pelas lágrimas que choraste e nunca cheguei a saber que choraste.
Obrigado porque ralhaste comigo quando me portei mal nas lojas, quando bati os pés com teimosia, quando “roubei” batatas fritas antes de o jantar estar servido, quando atirei a roupa suja para um canto do quarto. Obrigado por me teres mandado para a escola quando não me apetecia e inventava desculpas. E por me teres mandado fazer tarefas da casa que tu farias bem melhor e muito mais depressa.
Obrigado por teres mantido a calma quando eu num dia de chuva fui consertar a bicicleta para a cozinha, ou quando arranjei uma namorada de cabelo verde…
Obrigado por teres querido conhecer os meus amigos, e por todas as vezes que não me deixaste sair à noite sem saberes muito bem com quem ia e onde ia.
Obrigado porque eu cresci e o teu coração parece ter também crescido. Porque me deste coragem. Porque aprovaste as minhas escolhas, e te mantiveste a meu lado apesar de ter passado a haver a distância. Porque levantas a cabeça - mesmo sabendo que eu estou muito longe - quando vais na rua e ouves alguém da multidão chamar: “mãe!”.
Obrigado por guardares como tesouros os desenhos que fiz para ti na escola quando era o Dia da Mãe. E por ficares à janela a ver partir o carro, quando me vou embora, comovendo-te com os meus sinais de luzes.
Obrigado - já agora… - por não teres esquecido quais são os meus pratos favoritos; por o sótão da tua casa poder ser uma extensão do sótão da minha casa; por teres ainda no mesmo lugar a lata dos biscoitos…
Paulo Geraldo
Estragou a televisão!!! - Luís Fernando Veríssimo
Iiiih…
- E agora?
- Vamos ter que conversar.
- Vamos ter que o quê?
- Conversar. É quando um fala com o outro.
- Fala o quê?
- Qualquer coisa. Bobagem.
- Perder tempo com bobagem?
- E a televisão, o que é?
- Sim, mas aí é a bobagem dos outros. A gente só assiste. Um falar com o outro, assim, ao vivo… Sei não…
- Vamos ter que improvisar nossa própria bobagem.
- Então começa você.
- Gostei do seu cabelo assim.
- Ele está assim há meses, Eduardo. Você é que não tinha…
- Geraldo.
- Hein?
- Geraldo. Meu nome não é Eduardo, é Geraldo.
- Desde quando?
- Desde o batismo.
- Espera um pouquinho. O homem com quem eu casei se chamava Eduardo.
- Eu me chamo Geraldo, Maria Ester.
- Geraldo Maria Ester?!
- Não, só Geraldo. Maria Ester é o seu nome.
- Não é não.
- Como, não é não?
- Meu nome é Valdusa.
- Você enlouqueceu, Maria Ester?
- Pelo amor de Deus, Eduardo…
- Geraldo.
- Pelo amor de Deus, meu nome sempre foi Valdusa. Dusinha, você não se lembra?
- Eu nunca conheci nenhuma Valdusa. Como é que eu posso estar casado com uma mulher que eu nunca… Espera. Valdusa. Não era a mulher do, do… Um de bigode…
- Eduardo.
- Eduardo!
- Exatamente. Eduardo. Você.
- Meu nome é Geraldo, Maria Ester.
- Valdusa. E, pensando bem, que fim levou o seu bigode?
- Eu nunca usei bigode!
- Você é que está querendo me enlouquecer, Eduardo.
- Calma. Vamos com calma.
- Se isso for alguma brincadeira sua…
- Um de nós está maluco. Isso é certo.
- Vamos recapitular. Quando foi que casamos?
- Foi no dia, no dia…
- Arrá! Tá aí. Você sempre esqueceu o dia do nosso casamento… Prova de que você é o Eduardo e a maluca não sou eu.
- E o bigode? Como é que você explica o bigode?
- Fácil. Você raspou.
- Eu nunca tive bigode, Maria Ester!
- Valdusa!
- Tá bom. Calma. Vamos tentar ser racionais. Digamos que o seu nome seja mesmo Valdusa. Você conhece alguma Maria Ester?
- Deixa eu pensar. Maria Ester… Nós não tivemos uma vizinha chamada Maria Ester?
- A única vizinha de que eu me lembro é a tal de Valdusa.
- Maria Ester. Claro. Agora me lembrei. E o nome do marido dela era… Jesus!
- O marido se chamava Jesus?
- Não. O marido se chamava Geraldo.
- Geraldo…
- É.
- Era eu. Ainda sou eu.
- Parece…
- Como foi que isso aconteceu?
- As casas geminadas, lembra?
- A rotina de todos os dias…
- Marido chega em casa cansado, marido e mulher mal se olham…
- Um dia marido cansado erra de porta, mulher nem nota…
- Há quanto tempo vocês se mudaram daqui?
- Nós nunca nos mudamos. Você e o Eduardo é que se mudaram.
- Eu e o Eduardo, não. A Maria Ester e o Eduardo.
- É mesmo…
- Será que eles já se deram conta?
- Só se a televisão deles também quebrou.
POR FAVOR, TOCA-ME
POR FAVOR, TOCA-ME
Se sou o teu bebé, por favor, toca-me
Preciso do teu toque, de formas que nunca poderás entender.
Não me laves e vistas e me alimentes apenas
Mas embala-me, beija a minha cara e acaricia o meu corpo.
O suave toque da tua mão, transmite-me segurança e amor.
Se sou a tua criança, por favor, toca-me
Mesmo se te afastou ou te resisto
Persiste, encontra maneiras de conheceres as minhas necessidades.
O teu abraço de boa noite, adocica os meus sonhos
O teu toque durante o dia, diz-me o que sentes por mim.
Se sou o teu adolescente, por favor, toca-me
Não penses que por estar a crescer
Não preciso de saber que ainda gostas de mim.
Preciso do teu abraço de amor, preciso da tua voz suave
Quando o caminho se torna difícil, a criança dentro de mim precisa de ti.
Se sou o teu amigo, por favor, toca-me
Não há como um abraço caloroso, para me dizer que gostas de mim.
Uma mão tranquilizante e amiga quando estou de primido mostra-me que sou amado.
E assegura-me que não estou sozinho.
O teu toque reconfortante pode ser o único que eu recebo.
Se sou o teu parceiro sexual, por favor, toca-me
Podes pensar que a tua paixão seja suficiente
Mas só os teus braços afastam os meus medos.
Preciso do teu toque suave e reconfortante
Para me relembrar que sou amado por ser como sou.
Se sou o teu filho crescido, por favor, toca-me
Mesmo tendo a minha própria família para abraçar,
Ainda preciso do abraço da Mãe e do Pai quando dói.
Como Pai, tenho uma visão diferente
Eu aprecio-vos mais.
Se sou o teu Pai idoso, por favor, toca-me
Da mesma forma que era tocado quando era criança
Dá-me a mão, senta-te perto de mim, dá-me força
E aquece o meu corpo cansado com o teu aconchego.
Mesmo que a minha pele esteja enrugada e gasta,
Gosta de ser acariciada.
Phyllis K. Davies
Homenagem ao meu filho, dentro de meu ventre…
Mal te sinto e já te amo…
Mal te sinto e já te quero tanto…
Tanto que nem sei como explicar…
Simplesmente sinto…
E sinto e sinto esse amor tão grande…
Que é simplesmente amar…
Nem sei como será seu rosto,
Nem a cor de seus cabelos, dos olhos…
Nem o sexo eu sei…
Mas, mesmo assim, já te quero e te amo tanto…
Que, de repente, até esqueci de mim e, agora…
Só em vc eu penso…
E sinto, e amo, e cuido, desde o primeiro momento…
Nilza Rodrigues



